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Arquivo para favela

Marketing turístico como instrumento de produção e transformação do espaço turístico

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Você já ouviu falar no tour de favela? É estranho pensar que existe mercado para se conhecer algo que consideramos uma mazela. Mas, cada vez mais, esse tipo de turismo cresce e atrai milhares de estrangeiros. Tenho lido alguns estudos realizados nessa área e é impressionante como esse tipo de tour faz sucesso e expõe os moradores das comunidades ao olhar curioso do turista, como se os habitantes locais fossem animais expostos num zoológico. É claro que existem várias formas de se tratar o assunto, tanto defendendo como se opondo a isso, mas é um tema de importância relevante para o entendimento do turismo e do marketing realizado para esses passeios. Será que a divulgação feita foi a responsável por transformar esse ambiente urbano em local turístico ou pode ter outro motivo? Isso me fez lembrar de um texto que escrevi sobre o tema, para uma aula. Não é muito longo, mas acho legal colocar aqui e ver as opiniões sobre isso. Aí vai:

“Primeiramente, relembra-se o que é marketing. Kotler (1997) o define como o processo social e administrativo através do qual as pessoas ou grupos obtém aquilo que desejam através da criação e troca de produtos de valor com outros. Segundo Beni (1998), o marketing turístico é um processo administrativo através do qual as empresas turísticas identificam seus clientes reais e potenciais e se comunica com eles para conhecer e influenciar suas necessidades em todos os planos, objetivando formular e adaptar seus produtos visando a satisfação ótima da demanda. É um conjunto de métodos e técnicas que visam a satisfazer as necessidades dos turistas e receptores (MONTEJANO, 2001). Assim, o produto turístico é diferente dos demais por apresentar 4 particularidades: Intangibilidade; Inseparabilidade; Variabilidade e Perecibilidade. Isso quer dizer que o produto turístico não é mensurável, não acontece sem a presença do turista, nunca é vivenciado da mesma forma por todas as pessoas e não pode ser estocado.

O turismo ocorre sempre em alguma localidade. Está associado a um determinado lugar do mundo de forma irrefutável. Não se faz turismo dentro de casa (AGUIAR et al, 2011). Nos estudos de Massey (2008) encontra-se que espaço é um conjunto de inter-relações, desde o global até o intimamente pequeno, e que deve ser entendido como múltiplo em existências, estando sempre em construção, com relações que nascem, se estabelecem e morrem nele, até mesmo no sentido de identidades espaciais, como cidades, estados e países. Desta forma, o espaço turístico mantém as mesmas características, estando dividido em zonas, áreas, complexos, núcleo, conjunto etc, segundo suas características físicas, infraestrutura, atrativos turísticos (BOULLON, 1997). É, então, entendido como um local sempre em construção e que mantém diversas relações com outras esferas de conhecimento e vivência, onde ocorre a prática da atividade turística. É possível, assim, dizer que pode existir um espaço que não seja turístico ou que o seja somente em partes. Exemplo disso são as cidades. Resultados de diversas ações de agentes sociais, poder público e iniciativa privada, a cidade expressa a cultura de determinado local. O turismo pode acontecer ali e pode trazer benefícios sociais e econômicos (AGUIAR et al, 2011). Mas o turismo só acontece ali se for fomentado. Para isso existe o marketing, que não cria necessidades, mas pode criar desejos (KOTLER, 1997).

O marketing pode criar o desejo de se conhecer lugares inóspitos. Isso acontece através das ferramentas de comunicação do marketing, e também por sua imagem. Utilizando também a internet, as ações de marketing não se restringem somente a um público, elas são vistas pelo mundo. Ejarque (2009) afirma que o marketing turístico hoje é feito com uma grande dependência da internet. É a fonte primária de coleta de informações, com 39% de procura por parte dos turistas. Se alguma localidade ou empresa turística não está na web, ela praticamente não existe para o turismo. E, através da internet, espaços primariamente não turísticos se transformam em objeto de desejo. É o caso da favela. A iniciativa privada, conhecendo o gosto pelo inóspito do visitante de fora, através da web, disponibiliza um produto diferenciado, que são os tours por favelas. Como o Rio de Janeiro. A imagem do Rio é de Cidade Maravilhosa. Mas, através do discurso jornalístico (que acaba por ser utilizado pelo marketing), a imagem também é de violência e pobreza. Assim, o turista, ao conhecer as belezas do Rio, sente-se atraído também por conhecer o outro lado da moeda. O marketing realizado pelas agências de tours acaba construindo um novo destino, transformando a favela em espaço turístico. Esse espaço turístico construído acaba também sendo mutável e, cada vez mais, consolidado pelas agências. E a cidade, observando essa prática, incluiu a favela como destino turístico oficial (MEDEIROS, 2010), passando a promovê-la em suas campanhas. É assim que o marketing turístico transforma espaços e vai acabando com as fronteiras existentes no turismo”.
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Olha mãe…tô na laje da comunidade, kkk”

A minha opinião é de que existem desejos turísticos bizarros e obscuros…e o favela tour pode até ser benéfico, se for bem pensado e tentar evitar essa situação de zoológico humano. Existem tours bem piores mundo afora, e o da favela é quase poético perto deles. E você, o que acha?

REFERÊNCIAS DO TEXTO

AGUIAR, H; SILVA, J. B; GANDARA, J. M; SOUZA, T. A. O marketing turístico como instrumento de produção e transformação do espaço de Curitiba e região metropolitana. In: INTERNATIONAL CONFERENCE ON TOURISM & MANAGEMENT STUDIES, v. 1, 2011, Algarve. BOOKS OF PROCEEDING , p. 306 – 318.

BENI, M. C. Análise estrutural do turismo. São Paulo: SENAC, 1998.

BOULLON, R.C. Planificacion del espacio turístico. 3.ed. México: Trillas, 1997.

EJARQUE, J. Destination marketing: La nuova frontiera della promocommercializzazione turistica. Milão: Hoepli, 2009.

GANDARA, J. M. G; SOUZA, C. A; LACAY, M. C. O marketing turístico como instrumento de produção e transformação do espaço na região de Foz do Iguaçu e municípios lindeiros aolago de Itaipu. Cultur. Florianópolis, ano 5, n. 2, p. 19 – 41, ago. 2011.

KOTLER, P. Administração de Marketing. SãoPaulo: Atlas, 1997.

LEANDRO, A. G. O turismo em João Pessoa e a construção da imagem da cidade. 2006. 192 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa.

MASSEY, D. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

MEDEIROS, B. F. Entre tapas e beijos: a favela turística na perspectiva de seus moradores. Revista Sociedade e Estado. Brasília, v. 25, n. 1, p. 33 – 51, jan./ abr. 2010.

MONTEJANO, J. M. Estrutura do mercado turístico. São Paulo: Roca, 2001. 2 ed.

TELES, R. M. de S; PERUSSI, R. F. A importância da comunicação para a consolidação da imagem do produto turístico de São Paulo. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 30, 2007, Santos. NP 19 – Comunicação, Turismo e Hospitalidade – VII Encontro dos Núcleos de Pesquisa. Disponível em: . Acesso em 22 nov. 2010.

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