Viver do Turismo

A indústria do futuro!

Arquivo para Acadêmico

Novamente o Turismo na Favela

Brazil - 2172

Olá a todos.

Novamente esse assunto. Já escrevi uma vez sobre esse tema, o turismo em favelas, abordando como o marketing pode ser um dos fatores que geram a demanda para esse tipo de visitação. Sempre fico intrigado em como os desejos turísticos podem ser bizarros e pouco usuais. Já me deparei com milhares de artigos de sites de notícias que discorrem sobre “novos tipos de turismo” e, entre eles, sempre há o turismo para caçar animais selvagens, turismo para conhecer as partes menos favorecidas economicamente das localidades, turismo para conhecer pontos de crimes brutais…e muitos outros. A lista cresce cada vez mais, cada nova matéria aborda sobre uma nova “tendência” turística. Sei lá, são coisas, por vezes, absurdas e de difícil entendimento em um primeiro momento.

Eis que hoje encontro o blog de um escritor que acompanho já por alguma tempo, o Alex Castro (clique aqui e veja o site dele, recomendo bastante). Os textos dele aparecem em diversos sites e até então eu nunca havia entrado no dele próprio. Nesse ambiente, lendo seus textos, há um que fala sobre exatamente esse tema do turismo em favelas, escrito de forma muito interessante e que faz referência a um trabalho escrito por uma pesquisadora chamada Bianca Freire Medeiros. No meu artigo anterior sobre o turismo em favelas eu acabei lendo muitos artigos publicados por essa pesquisadora e foram esses artigos que me fizeram postar aquele primeiro texto. Como eu acredito que assuntos como esse devem ser abordados, analisados e debatidos com mais profundidade, posto agora o texto do Alex Castro. Não estranhem a forma de escrita, o Alex Castro tem um modo diferente e que aprecio muito. Há uma explicação no final do texto. Ei-lo:

turismo na favela

de uns tempos pra cá, virou moda: turistas vêm ao rio e não querem mais conhecer o corcovado ou o pão de açúcar, mas sim a favela da rocinha e do vidigal. estão as pessoas gringas se aproveitando das faveladas? ou são as pessoas faveladas que estão cambalachando as gringas? o turismo estimula o progresso das favelas ou garante que nunca saiam da mesma estagnação?

o pós-turista

o turismo nas favelas é uma faceta no novo “pós-turismo”.

agora que pessoas de poder aquisitivo cada vez mais baixo já podem visitar os destinos turísticos tradicionais (a classe média sofre com esses pobretões na fila da disney!), as novas pós-turistas, para se distanciar da ralé e reestabelecer a distância original, precisam buscar novas experiências turísticas, mais inusitadas, mais interativas, mais aventureiras, indo a lugares que seriam a antítese do antigo turismo, localidades antes marginais e agora reinventadas e reapropriadas.

em outras palavras, com tantas pessoas pobres agora lotando gallerie laffayette, em paris, suas antigas frequentadoras hoje fazem safari tours em favelas.

a indústria do turismo classifica a pobreza como exótica, a transforma em mercadoria e a vende para turistas que queiram participar dessa “economia de sensações”, onde o que compram é justamente a sensação voyeurítica de poder vivenciar a pobreza e a miséria sem precisar, para isso, serem pobres e miseráveis.

o capitalismo celebra toda a diferença que seja capaz de mercantilizar.

turismo da miséria: prós e contras

eu sou do rio, morei por seis anos em nova orleans e faço pesquisas em havana. são três cidades turísticas (e lindas, diga-se de passagem) onde se faz esse “turismo da pobreza”.

no rio, são as favelas. em nova orleans, é a destruição causada pelo furacão katrina. em havana, são os prédios em ruínas. sempre cercados de belgas bem alimentados, calçando birkenstocks e tirando fotos com máquinas cujo valor alimentaria uma família local.

isso é bom?

para defensores da prática, ela tem as seguintes vantagens:

  • melhorar o desenvolvimento econômico da região;
  • conscientizar turistas;
  • aumentar a autoestima da população;
  • forjar lideranças locais;
  • compartilhar recursos e conhecimento entre pessoas que não teriam se encontrado se não fosse o turismo.

para quem está contra, existiriam dois grandes problemas:

  • os benefícios gerados vão em grande parte para as pessoas proprietárias das agências e não revertem em melhorias e investimentos nas comunidades;
  • mais que conscientização e mobilização social, essas visitas gerariam um certo voyeurismo diante da pobreza e do sofrimento.

quem é a turista da miséria?

em seu livro gringo na laje, a socióloga bianca freire-medeiros traçou um interessante estudo do turismo na favela da rocinha, falando com moradoras, turistas, guias de passeio e proprietárias de agência.

segundo suas pesquisas, a principal característica dessa turista seria sua ansiedade de se diferenciar:

  • das moradores; afinal, o turismo na favela não deixa de ser uma maneira de darem mais valor aos confortos materiais de casa.
  • das turistas convencionais, que só vão aos pontos turísticos previsíveis e jamais teriam coragem de encarar uma favela.
  • das turistas voyeurs e pouco engajadas, que visitam as favelas do jeito errado, como abutres, sem contribuir, sem ajudar, etc.
  • da elite local, preconceituosa e com medo de conhecer sua própria cidade.

mais do que tudo, essas turistas estão buscando por uma mítica “experiência verdadeira”, uma certa “realidade nua e crua” a qual teoricamente não têm mais acesso em casa – como se suas vidas afluentes e confortáveis na europa fossem menos reais e menos verdadeiras do que as vidas dos favelados da rocinha.

e saem do passeio com a sensação de terem desfrutado de uma experiência completamente inalcançável e intransferível, seja aos turistas comuns, seja às elites locais.

essa busca ansiosa pela ilusória “mediação não mediada” baseia-se na crença de que existem experiências turísticas “autênticas” que podem acontecer sem a mediação da indústria do turismo, sem serem produtos culturais prontos e pré-fabricados.

ou seja, é a miragem de que o produto “passeio de um dia na favela da rocinha”, vendido por uma agência de turismo, é intrinsecamente mais autêntico do que o produto “passeio de um dia no corcovado”, vendido pela mesmíssima agência.

para que a visita à favela sirva seu objetivo, a turista precisa se convencer que a sua visita, ao contrário das das outras turistas voyeurs, é um ato ético e solidário.

a experiência não deixa de trazer consigo uma certa ansiedade: afinal, como uma praia deserta, se todas a visitarem, ela deixa de ser deserta.

nesse ponto, o valor da favela está em ser exclusiva e fora do mainstream; quanto mais turistas a visitarem, menos desejável ela se torna como fator de diferenciação.

fica claro que, nessa economia de sensações do turismo da miséria, o que está sendo vendido à turista é principalmente uma certa sensação de superioridade moral e intelectual.

o que pensam as moradoras das favelas

a principal ilusão das turistas é que seus passeios trazem algum benefício à comunidade.

de fato, as agências são operadas de fora da favela e os lucros vão para suas proprietárias. quando muito, comerciantes da favela tem um pequeno aumento de vendas, mas a maioria diz que turistas só querem saber de tirar fotos e comprar água.

em muitas ocasiões, fica claro que as turistas querem apenas uma confirmação de sua própria imagem mental da favela. conta uma moradora:

“uma vez, quando meu filho era mais novo, [algumas turistas] quiseram tirar foto dele, mas quando cheguei com ele [que é branco], eles não quiseram, porque eles queriam um neguinho.”

na verdade, como disse um comerciante, as turistas dão somente uma pequena ajuda nos lucros, mas seu maior valor está em tirar a impressão de lugar violento que a favela tem. por isso, grande parte das pessoas moradoras vê esse tipo de turismo de modo positivo.

para as moradoras, a questão não é nem tanto se o turismo na favela deveria existir ou não, mas de que maneira ele poderia beneficiar a comunidade. a maioria das turistas pensa estar ajudando a comunidade simplesmente ao participar do passeio, mas as moradoras têm outra ideia do que constituiria ajuda:

“os turistas … às vezes … só passam pelos lugares mais ricos… [s]e eles fossem lá… onde o pessoal é mais necessitado, talvez eles pudessem se inspirar em limpar o lugar, talvez alguém se interessasse em ajudar os moradores… alguém poderia trazer dinheiro, consertar um cano. isso iria beneficiar a galera lá, porque ia incentivar os moradores a consertar as casas, tirar a lama, tirar o lixo.”

a questão do cheiro

o cheiro ruim é essencialmente subversivo. ele não pode ser banido, controlado, pasteurizado, estetizado.

se a fotografia permite que a miséria mais degradante transforme-se em objeto estético (oi, sebastião salgado), o cheiro não se presta a isso.

a vala aberta, o esgoto imundo, o lixo ao sol, o rato morto, nenhum deles pode ser tão facilmente domesticado, empacotado, vendido e distribuído ao mundo como uma bela foto de uma menina pobre e remelenta.

o cheiro exige ser confrontado: ou você fala sobre ele, ou você fica calado. não existe meio termo.

e, não por acaso, os relatos sobre visitas às favelas abundam em fotos, mas contém muito poucas referências ao cheiro.

nós também fazemos parte do problema

essa história não tem mocinhas nem vilãs. as faveladas não são pobres coitadas incapazes de pensar criticamente sua situação. as estrangeiras não são babacas ou iludidas ou ingênuas. as guias de turismo e donas de agência não estão explorando a favela.

senão, podemos acabar falando coisas assim:

“cabe a nós, elite ilustrada não-favela, defender as pessoas faveladas dessas turistas desalmadas e voyeuristas que as veem como animais em jaulas.”

na verdade, nosso papel nessa história é outro.

quando as turistas se gabam de visitar a favela, um lugar onde a preconceituosa elite local se recusa a ir… é de nós que estão falando.

quando as moradoras dizem que o maior benefício do turismo é quebrar a invisibilidade social da favela e ajudar a refutar os estigmas de violência e miséria… é de nós que estão falando, nós que criamos essa invisibilidade, nós que perpetuamos esse estigma.

e então? o que nós vamos fazer?

* * *

o texto que você acabou de ler é um resumo e uma paráfrase do livro gringo na laje: produção, circulação e consumo da favela turística, de bianca freire-medeiros, publicado pela editora fgv em 2009, e disponível em uma edição de bolso baratinha. recomendo com ênfase.

* * *

aviso sobre linguagem e gênero

o texto acima fez uma valente tentativa de ser unissex e usar uma linguagem de gênero sempre neutra. todas as explicações e argumentos, sem exceção, se aplicam igualmente a homens e mulheres, pessoas cis e trans*, pessoas hétero, homo e bissexuais. se alguma frase ou construção pareceu excluir essa ou aquela identidade, sexo, gênero ou orientação, foi descuido meu. por favor, avisem e vou corrigir. para mais detalhes sobre como utilizar uma linguagem menos sexista, por favor, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua.

O Famigerado Agente de Viagens

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Nosso amigo agente 

Como abordei em postagens anteriores, a indústria do turismo apresenta ao turismólogo uma gama de empregos e atividades bem variadas, distintas e, não raro, independente das demais. Nesse caso podem-se ser citadas as áreas de consultoria e de planejamento etc. Mas o que quero escrever aqui, dessa vez, é sobre a área de agenciamento de viagens e sobre o cargo mais comum dentro desse setor: o agente de viagens. Já tive experiências trabalhando nesse cargo e posso dizer que é algo realmente extraordinário (tanto pra bom quanto pra ruim…). Mas sei que não passei nem uma fração do que outros agentes possam ter passado na mão dos maravilhosos clientes! Enfim, aqui vai então um pouco sobre esse trabalho tão importante e tão desmerecido por parte dos clientes e dos próprios turismólogos. Mas não se engane, não escreverei sobre situações que vivi ou sobre casos inusitados, isso fica pra outra oportunidade.

Primeiramente, as agências de viagens nada mais são do que prestadoras de serviço, e ela são responsáveis por fazer a intermediação do cliente-turista com os prestadores de serviços turísticos. Essa é a função prima de um estabelecimento desse tipo: colocar o viajante em contato com transportadoras (aéreas, rodoviárias, marítimas), hotéis, seguradoras, e assim por diante. A agência atua como uma revendedora das operadoras de turismo, que são aquelas que montam os pacotes turísticos, negociando com esses mesmos fornecedores citados preços especiais para compra em grande escala. Assim sendo, uma agência “normal” pode trabalhar com diversas operadoras e oferecer muitas opções de pacotes turísticos, serviços corporativos etc, e isso acaba tornando o trabalho um pouco complexo tendo em vista a diversidade de parceiros da agência. E, como forma de diferenciação perante a brutal concorrência desse mercado, as agências estão, cada vez mais, personalizando seus processos de atendimento, oferecendo serviços em outras áreas fora da esfera do turismo. Quem precisa lidar com tudo isso de forma a ofertar ao cliente a melhor opção é o nobre agente de viagens. A não muito tempo atrás, esse profissional era encarregado somente de vender passagens aéreas e pacotes de turismo sem flexibilidade, além das excursões comuns. Hoje em dia as coisas mudaram. O agente de viagens precisa ser uma pessoa dinâmica, sem preguiça, com vontade de aprender e que, sobretudo, goste de pessoas. Ah, é preciso gostar muito de interagir! O crescimento econômico do Brasil nos últimos anos fez crescer a renda do brasileiro, e as viagens aumentaram, bem como a variedade de destinos possíveis de se visitar, que é quase infinita.

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Boa tarde senhor, em que posso ajuda-lo? (a propósito, belas sobrancelhas, senhor)

O agente de viagens é o vetor principal no atendimento dentro das agências. Ele deve ter em mente que os clientes não compram produtos ou serviços, mas sim soluções para seus problemas e satisfação para seus desejos. O agente de viagens deve ser uma pessoa com conhecimentos técnicos e práticos sobre o mercado e sobre os produtos e serviços oferecidos. A qualificação é, então, um dos fatores principais para um bom agente de viagens.  Deve ser uma pessoa comunicativa, amigável e que saiba escutar o cliente. E é incrível como existem agentes que não fazem isso, não escutam os desejos dos clientes e não sabem se comunicar. Como existem vários destinos, esse profissional precisa conhecê-los de alguma forma, mesmo não podendo visita-los. E as facilidades que hoje a internet permite são as principais aliadas para esse ganho de informações e conhecimento. Ora, o cliente também dispõe das mesmas facilidades, você pode pensar, então não é mais necessário um agente de viagens. Na teoria, isso é válido, mas não na prática. Experimente você tentar montar uma viagem, sem conhecimento sobre a dinâmica dos serviços turísticos, e sem uma base de dados sobre o destino escolhido! São milhares de sites, milhares de hotéis, milhares de opções de companhias aéreas, horários de voo, e milhares de opiniões de viajantes a respeito desses serviços. Um hotel perfeito em fotos pode se transformar em uma grande dor de cabeça ao vivo, e um comentário negativo sobre um ponto turístico pode fazer você perder uma experiência incrível. E todo esse bombardeio de informações desencoraja aquele viajante que tem condições de contar com a ajuda de alguém que saiba filtrar tudo isso e formate uma viagem com tudo nos seus devidos lugares. Imagine então a quantidade de informações que um agente de viagens deve conhecer para poder dar conta de toda a demanda de viagens existentes. Eu mesmo costumava passar horas observando as localizações de hotéis nos destinos turísticos, calculando distâncias de um ponto turístico a outro, horas lendo opiniões de hóspedes sobre os hotéis, vendo fotos de diversos ângulos, tudo para poder transmitir ao cliente confiança de que eu realmente sabia do que estava falando e estabelecendo uma relação de confiança.

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O tipo de informação que o agente deve saber nº 1!! 

Essa relação de confiança tem um nome bem bonitinho: rapport! Do francês, significa relação. Relação de mútua confiança e compreensão entre duas ou mais pessoas. A capacidade de provocar reações de outra pessoa. Também chamado de espelhamento ou identificação. É o estabelecimento de confiança, harmonia e cooperação em um relacionamento. É a base da interação, influência. Tem o objetivo de conhecer o outro. E por que isso? Qual o motivo de dar a essa relação esse nome? Afinal, é só um atendimento de vendedor com cliente, não é mesmo? A realidade mostra que não. O agente de viagens precisa ser diferente de vendedores de produtos físicos ou outros serviços. É preciso fazer com que o cliente simpatize com o agente, confie no que foi falado, e coopere para facilitar o trabalho do agente. Não é sempre que o agente conhece tudo que o cliente deseja conhecer, e precisa estudar e se informar, mas sem deixar transparecer sua falta de conhecimento ou experiência durante a relação. Caso contrário, não haverá empatia mútua. O produto turístico é uma ideia. O cliente não pode testá-lo ou saboreá-lo antes de comprar. É por isso que o trabalho dos agentes de viagens é tão complexo. A ideia não se vende sozinha, alguém precisa passa-las, com confiança, a outro. E o rapport é exatamente isso, estabelecer confiança de que cliente e vendedor são iguais e falam a mesma língua, então a venda passa a ser uma interação que resulta em compra de produtos e serviços. E com esse rapport é que o agente vai poder executar seu trabalho da melhor maneira, pois passa a conhecer o desejo do cliente e o produto que será ofertado quase sempre se encaixa com o que o viajante quer. Com o rapport, o agente ganha confiança para colher todas as informações dos destinos que o turista informou, pesquisar os melhores hotéis, negociar preços e tudo o mais, que é natural da função de consultor de vendas de turismo.

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O tipo de informação que o agente deve saber nº 2!! (alfabeto fonético – estão faltando algumas letras, eu sei)

Então você, que ainda não tem noção do que quer fazer depois de se formar (e até mesmo durante a faculdade), ou que não sabe o que faz um agente de viagens, eu recomendo que você tente essa área. Ela é rica (muito) em experiências e situações, que irão te motivar tanto quanto te desmotivar, que irão te dar alegrias, mas também tristezas! Ser agente de viagens é enfrentar todos os dias as mais variadas pessoas e casos. É aprender que comunicação e tudo! Mas as recompensas são maravilhosas também. Saber que alguém confia em você e que uma viagem que você trabalhou duro para montar correu tudo bem é incrível. Eu sou pela valorização desse profissional, que por muitas vezes é desmerecido pelos clientes e pela indústria do turismo. É por isso que escrevi como título o Famigerado Agente…incrível como muitos clientes só lembram desse profissional quando dá tudo errado!!! Mas enfim, essa é a dinâmica das interações humanas, não é mesmo? Agências de viagem: tenta lá (existem os famtours pra te animar)!

Ah, e aqui eu sugiro dois sites legais pra um agente de viagens passar um tempinho. Um, que é o Flight Radar, é para acompanhar em tempo real todos os voos do mundo, e dá pra filtrar por companhia aérea, modelo de aeronave, e mais um monte de coisas!! Aqui está o link: http://www.flightradar24.com/. E o outro site é, na verdade, um joguinho, mas um joguinho de localização geográfica no mundo. A ideia do criador é testar o seu conhecimento sobre os lugares, paisagens e tudo o que for sobre algum país específico, para ver se você sabe, aproximadamente, que lugar fica aquela imagem. É interessante para um agente, que deve saber se localizar! Eis o link: http://geoguessr.com/.

REFERÊNCIAS:

Não citei ninguém diretamente, mas o texto apresenta ideias tiradas de alguns autores, além de um treinamento que realizei com um consultor chamado Alex Sorlino, da Cher Consultoria, que me ensinou bastante sobre a prática das negociações!

ACERENZA, Miguel Angel. Agências de viajes – Organización y operación. Promoção turística: um enfoque metodológico. México: Trilhas, 1990. São Paulo: Pioneira, 1991.

PETROCCHI, Mário; BONA, André. Agências de turismo: planejamento e gestão.3 ed. São Paulo: Futura, 2003.

TOMELIN, Carlos Alberto. Mercado de agências de viagens e turismo: como competir diante de novas tecnologias. São Paulo: Aleph, 2001.

Marketing turístico como instrumento de produção e transformação do espaço turístico

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Você já ouviu falar no tour de favela? É estranho pensar que existe mercado para se conhecer algo que consideramos uma mazela. Mas, cada vez mais, esse tipo de turismo cresce e atrai milhares de estrangeiros. Tenho lido alguns estudos realizados nessa área e é impressionante como esse tipo de tour faz sucesso e expõe os moradores das comunidades ao olhar curioso do turista, como se os habitantes locais fossem animais expostos num zoológico. É claro que existem várias formas de se tratar o assunto, tanto defendendo como se opondo a isso, mas é um tema de importância relevante para o entendimento do turismo e do marketing realizado para esses passeios. Será que a divulgação feita foi a responsável por transformar esse ambiente urbano em local turístico ou pode ter outro motivo? Isso me fez lembrar de um texto que escrevi sobre o tema, para uma aula. Não é muito longo, mas acho legal colocar aqui e ver as opiniões sobre isso. Aí vai:

“Primeiramente, relembra-se o que é marketing. Kotler (1997) o define como o processo social e administrativo através do qual as pessoas ou grupos obtém aquilo que desejam através da criação e troca de produtos de valor com outros. Segundo Beni (1998), o marketing turístico é um processo administrativo através do qual as empresas turísticas identificam seus clientes reais e potenciais e se comunica com eles para conhecer e influenciar suas necessidades em todos os planos, objetivando formular e adaptar seus produtos visando a satisfação ótima da demanda. É um conjunto de métodos e técnicas que visam a satisfazer as necessidades dos turistas e receptores (MONTEJANO, 2001). Assim, o produto turístico é diferente dos demais por apresentar 4 particularidades: Intangibilidade; Inseparabilidade; Variabilidade e Perecibilidade. Isso quer dizer que o produto turístico não é mensurável, não acontece sem a presença do turista, nunca é vivenciado da mesma forma por todas as pessoas e não pode ser estocado.

O turismo ocorre sempre em alguma localidade. Está associado a um determinado lugar do mundo de forma irrefutável. Não se faz turismo dentro de casa (AGUIAR et al, 2011). Nos estudos de Massey (2008) encontra-se que espaço é um conjunto de inter-relações, desde o global até o intimamente pequeno, e que deve ser entendido como múltiplo em existências, estando sempre em construção, com relações que nascem, se estabelecem e morrem nele, até mesmo no sentido de identidades espaciais, como cidades, estados e países. Desta forma, o espaço turístico mantém as mesmas características, estando dividido em zonas, áreas, complexos, núcleo, conjunto etc, segundo suas características físicas, infraestrutura, atrativos turísticos (BOULLON, 1997). É, então, entendido como um local sempre em construção e que mantém diversas relações com outras esferas de conhecimento e vivência, onde ocorre a prática da atividade turística. É possível, assim, dizer que pode existir um espaço que não seja turístico ou que o seja somente em partes. Exemplo disso são as cidades. Resultados de diversas ações de agentes sociais, poder público e iniciativa privada, a cidade expressa a cultura de determinado local. O turismo pode acontecer ali e pode trazer benefícios sociais e econômicos (AGUIAR et al, 2011). Mas o turismo só acontece ali se for fomentado. Para isso existe o marketing, que não cria necessidades, mas pode criar desejos (KOTLER, 1997).

O marketing pode criar o desejo de se conhecer lugares inóspitos. Isso acontece através das ferramentas de comunicação do marketing, e também por sua imagem. Utilizando também a internet, as ações de marketing não se restringem somente a um público, elas são vistas pelo mundo. Ejarque (2009) afirma que o marketing turístico hoje é feito com uma grande dependência da internet. É a fonte primária de coleta de informações, com 39% de procura por parte dos turistas. Se alguma localidade ou empresa turística não está na web, ela praticamente não existe para o turismo. E, através da internet, espaços primariamente não turísticos se transformam em objeto de desejo. É o caso da favela. A iniciativa privada, conhecendo o gosto pelo inóspito do visitante de fora, através da web, disponibiliza um produto diferenciado, que são os tours por favelas. Como o Rio de Janeiro. A imagem do Rio é de Cidade Maravilhosa. Mas, através do discurso jornalístico (que acaba por ser utilizado pelo marketing), a imagem também é de violência e pobreza. Assim, o turista, ao conhecer as belezas do Rio, sente-se atraído também por conhecer o outro lado da moeda. O marketing realizado pelas agências de tours acaba construindo um novo destino, transformando a favela em espaço turístico. Esse espaço turístico construído acaba também sendo mutável e, cada vez mais, consolidado pelas agências. E a cidade, observando essa prática, incluiu a favela como destino turístico oficial (MEDEIROS, 2010), passando a promovê-la em suas campanhas. É assim que o marketing turístico transforma espaços e vai acabando com as fronteiras existentes no turismo”.
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Olha mãe…tô na laje da comunidade, kkk”

A minha opinião é de que existem desejos turísticos bizarros e obscuros…e o favela tour pode até ser benéfico, se for bem pensado e tentar evitar essa situação de zoológico humano. Existem tours bem piores mundo afora, e o da favela é quase poético perto deles. E você, o que acha?

REFERÊNCIAS DO TEXTO

AGUIAR, H; SILVA, J. B; GANDARA, J. M; SOUZA, T. A. O marketing turístico como instrumento de produção e transformação do espaço de Curitiba e região metropolitana. In: INTERNATIONAL CONFERENCE ON TOURISM & MANAGEMENT STUDIES, v. 1, 2011, Algarve. BOOKS OF PROCEEDING , p. 306 – 318.

BENI, M. C. Análise estrutural do turismo. São Paulo: SENAC, 1998.

BOULLON, R.C. Planificacion del espacio turístico. 3.ed. México: Trillas, 1997.

EJARQUE, J. Destination marketing: La nuova frontiera della promocommercializzazione turistica. Milão: Hoepli, 2009.

GANDARA, J. M. G; SOUZA, C. A; LACAY, M. C. O marketing turístico como instrumento de produção e transformação do espaço na região de Foz do Iguaçu e municípios lindeiros aolago de Itaipu. Cultur. Florianópolis, ano 5, n. 2, p. 19 – 41, ago. 2011.

KOTLER, P. Administração de Marketing. SãoPaulo: Atlas, 1997.

LEANDRO, A. G. O turismo em João Pessoa e a construção da imagem da cidade. 2006. 192 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa.

MASSEY, D. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

MEDEIROS, B. F. Entre tapas e beijos: a favela turística na perspectiva de seus moradores. Revista Sociedade e Estado. Brasília, v. 25, n. 1, p. 33 – 51, jan./ abr. 2010.

MONTEJANO, J. M. Estrutura do mercado turístico. São Paulo: Roca, 2001. 2 ed.

TELES, R. M. de S; PERUSSI, R. F. A importância da comunicação para a consolidação da imagem do produto turístico de São Paulo. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 30, 2007, Santos. NP 19 – Comunicação, Turismo e Hospitalidade – VII Encontro dos Núcleos de Pesquisa. Disponível em: . Acesso em 22 nov. 2010.

Fim de ano, turismo de massa e ônibus

dicas-para-viagens-de-final-de-ano10

Finalmente dezembro! Chega-se a mais um fim de ano e, como sempre, o desejo de viajar cresce em boa parte da população. É tempo de férias, festas, confraternizações.E sempre aos finais de ano, a corrida por passagens é acirrada e cada poltrona, para determinados lugares, é disputada ferozmente pelos brasileiros ávidos por…ah, quase sempre é praia! Confesso, eu também queria ir pra praia…

É aquele famoso turismo de massa. Para relembrar, turismo de massa é aquele surgido depois da segunda guerra mundial e que deu à classe média a chance de viajar e “consumir” turismo, aproveitando todo o aparato da indústria do entretenimento e lazer (TRIGO, 1998). As consequências desse movimento das classes menos abastadas em turismo trouxe ao mundo alguns problemas. Muita gente passou a se deslocar de suas residências e a lotar destinos turísticos que ainda não estavam preparados para receber contingentes tão grandes. Os turistas passaram se acotovelar em aeroportos, esperar em longas filas para entrar em restaurantes e até mesmo a comprar souveniers que não foram feitos na localidade como sendo feitos na localidade (BENI, 2001). Os espaços turísticos foram sendo consumidos desenfreadamente e então começaram a se esgotar. A matéria prima do turismo passou a, de certa forma, morrer, e só então a preocupação com a continuidade entrou em foco, com estudos sendo realizados para medir a capacidade de carga dos destinos turísticos bem como a preocupação com a preservação. Mas, ainda considerando os estudos de Beni (2001, pg. 79), “o turismo de massa conferiu fisionomia marcadamente móvel e dinâmica ao mundo”. Isso quer dizer que esse tipo de turismo também trouxe benefícios. Antes do surgimento desse turismo de massa, uma parcela pequena da humanidade viajava, e os meios de transporte não eram os melhores para permitir viagens longas com objetivos de lazer. Após a segunda guerra e o o surgimento das oportunidades de viagem a todos, o mundo passou a ser visto como espaço de todos, dinâmico. Nenhum lugar era mais impossível de se alcançar. Os meios de transporte haviam evoluído e o turista da época podia sonhar em conhecer qualquer destino. O turismo de massa abriu as portas do mundo para a atividade turística, e esse é um ganho relativamente grande frente os pontos negativos, pois é a partir do turismo de massa que a atividade começou realmente a ser pensada e organizada, englobando estudos sobre o deslocamento humano, uso dos espaços turísticos, ciclo de vida dos destinos turísticos, preservação ambiental, e incluindo o lazer, recreação e entretenimento como componentes da indústria turística. Trigo (1998) até relembra dos estudos sobre essa indústria do entretenimento e lazer feitos pelos frankfurtianos (um grupo de estudiosos marxistas reunidos por essa alcunha por trabalharem com base em Frankfurt), que apontavam como o entretenimento poderia ser utilizado para manipular a massa e destituir-lhes do poder de discernimento, visto que a indústria do entretenimento passou a ser manipuladora e não mais focada nos princípios de simples lazer (ADORNO, 1999). Mas deixemos esse ponto para outro post né!

Então, boa parte dos viajantes ainda pratica o antigo turismo de massa, preferindo ir à praia, lotar as areias, enfrentar filas em mercados, bancas de jornal, restaurantes, shoppings, lentidão no trânsito, preços inflacionados, falta de água e mais um monte de consequências da superlotação do litoral nessa época de alta temporada, e não escolhem outros destinos. Isso é, como mostrado acima, legado da história da humanidade, e ainda precisa-se evoluir muito para que o turismo seja vivenciado em todas as suas vertentes. Mas, abordando agora um outro ponto, como nós, brasileiros, viajamos nessa época de fim de ano? Hoje em dia pensa-se muito no transporte aéreo (e no caos que dezembro causa nos aeroportos), pode-se lembrar também do carro particular, e também existem os ônibus. Quem aí já tentou saber mais sobre os ônibus? Quem trabalha em agência de viagem, como consultor de turismo ou como guia já deve ter, algum dia, se pego pensando em como saber que tipo de ônibus utilizar para uma viagem. As empresas de transporte rodoviário utilizam várias siglas e nomenclaturas para separar sua frota e, na realidade, pouco se fala a respeito disso. Em recente oficina que realizei com uma especialista em turismo social, a Juliana Côco, de Florianópolis, finalmente decifrei alguma coisa! Vamos lá:

Pode-se separar o ônibus por diversas categorias – tamanho, peso, tipo de serviço… – mas aqui, por causa das características do turismo, abordo a categoria de serviços.
Ônibus Econômico: veículo simples, sem equipamentos e facilidades.
Ônibus Convencional: com somente dois eixos, recomendado para viagens até 300 kms. Os bancos reclinam muito pouco, janelas de abrir e em alguns casos podem ter banheiro. A passagem neles é sempre mais barata.onibus convencional
Ônibus Executivo: oferece serviço diferenciado com poltronas e arranjo interno mais confortável. Possui ar-condicionado, descanso para as pernas, som ambiente, TV/DVD, bar, com ou sem comissário de bordo, e banheiro no fundo. Algumas companhias oferecem coberta e travesseiro higienizados. Indicados para viagens de até 600 kms.onibus executivo
Ônibus Leito: dimensões maiores que os demais, poltronas amplas com apoio para as pernas, quase se transformando em cama, dispostas a habilitar o máximo de conforto, sendo desejável a disponibilidade de lanche. Possui também todo o aparato dos demais tipos. Existe o semi-leito, que possui mais poltronas e não inclina totalmente. As nomenclaturas são Leito Turismo, indicado para até 1.600 kms, Leito Total, para viagens de até 2.500 kms, LD (Low Drive), com dois andares e banheiro na parte de baixo, e DD (Double Deck), com quatro eixos, dois andares, sala de jogos.leito turismoonibus ddonibus ld

Agora ficou mais fácil escolher o melhor ônibus para uma viagem. Cada um com sua caracterítisca e benefícios. Muita gente gosta dos ônibus e também existem aficionados nesse tipo de transporte, chamados de busólogos (tenho um amigo que é!). A passagem vai ficando mais cara a medida que o ônibus vai melhorando, e os fabricantes começam a querer competir com o conforto dos aviões. De fato, viajar de ônibus pode ser cansativo, mas cada vez mais eles vão inserindo diferenciais, com empresas que oferecem até poltronas e banheiros para mulheres. As companhias rodoviárias, nota-se, só abriram os olhos para essas questões de marketing agora, e, na minha opinião, podemos esperar uma melhora significativa nesse tipo de transporte daqui pra frente, pois, com os aeroportos cada vez mais lotados, os ônibus voltam a ter papel importante no deslocamento de turistas (sempre foi importante). Com as melhorias nas estradas (ainda poucas, mas ainda assim ajudam), os ônibus podem se deslocar com maior facilidade, e os serviços dentro do veículo vão melhorando. O cliente passa a ter melhores opções de empresas, e as companhias podem até mesmo acabar se utilizando dos sistemas de fidelidade tão famosos pelas companhias aéreas para fidelizar clientes. E assim, vamos viajar no fim de ano e aproveitar as férias!

Referências do texto:
ADORNO, Theodor W. Textos escolhidos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. São Paulo: SENAC, 2001.
TRIGO, Luíz Gonzaga Godoi. A sociedade pós-industrial e o profissional em turismo. Campinas, SP: Papirus,1998.