Viver do Turismo

A indústria do futuro!

Meu “eu turista”

*Esse post não é sobre um assunto acadêmico, nem terá referências bibliográficas…é somente um assunto que eu quis escrever, biográfico*

Já quis morar em vários lugares desse mundo. Desde pequeno, meu sonho sempre foi viajar, morar por um tempo em outros países, viver a rotina de uma outra sociedade, ir ao mercado de lá e poder dizer: nossa, no Brasil é mais barato! E foram tantos os lugares que já me encantaram nesses 26 anos e que eu já sonhei de noite em como seria minha vida lá. Então, de uns tempos pra cá comecei a lembrar todos os lugares e perceber o quanto eu fui mudando ao longo do tempo e em como minha percepção de turismo mudou também. Nós crescemos e os desejos mudam, e isso se reflete também no nosso “eu turista” (não achei termo melhor e também não pensei muito sobre, hehehe). O turismo que tanto estudamos e ensinamos nas salas de aula depende muito desse “eu turista” das pessoas, e saber entender e interpretar isso é que vai fazer de nós bons profissionais e bons viajantes. Principalmente bons viajantes!

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Seattle e a Space Needle.

Acho que o primeiro lugar de todos foi Seattle, quando eu tinha 6 ou 7 anos. Eu não sabia nada sobre a cidade, nem sobre os Estados Unidos, nem sobre viajar, nem sobre praticamente nada, mas aquelas fotos com o Space Needle em destaque me fascinavam e eu falava aos meus amigos que Seattle era a cidade que iria morar no futuro. Não existia wikipedia, a internet ainda era um embrião e a fonte de informações era a biblioteca. Em casa eu tinha aquela enciclopédia Barsa e uns outros almanaques que meu pai comprava, e era com eles que eu aprendia sobre as mais diversas coisas, inclusive sobre Seattle. É tão legal ler e aprender sobre uma cidade, tudo parece tão perfeito e ideal para nós. E eu ficava lá, descobrindo a posição geográfica, sistema de transporte, pontos turísticos. Mas eu era uma criança ainda…

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Cerejeiras no Japão.

Japão! Minha nossa, esse foi o segundo destino que escolhi para viver. E foi um desejo profundo. Eu tinha 15 ou 16 anos…era a época do “boom dos animes”, e eu aprendi a desenhar no estilo mangá. Consumia tudo que conseguia sobre a cultura japonesa. Fiz parte de fóruns de discussão, comprava revistas que mostravam o país, lia mangás, assistia animes, desenhava minha própria revista (fanzine) e trocava por outros fanzines…e o Japão se fixou na minha vida. A cidade que eu escolhi foi Quioto, com seus milhares de templos e jardins. Mais uma vez a Barsa me ajudou a descobrir. Conheci o budismo nessa época também. Mas agora era diferente de Seattle…eu precisava de mais. E aí lá fui eu aprender a ler e tentar falar o japonês! Por muito tempo estudei sozinho o idioma, peguei livros didáticos japoneses emprestados, escrevi e reescrevi vários tipos de frases. Escutei músicas em japonês, tentei cantá-las. Tudo isso me deixou pronto para viver lá um dia. Um dia…mas, pra variar, essa época passou. Mas o que aprendi sobre o Japão ainda faz parte da minha vida. Principalmente o budismo (não que eu seja budista, mas é a religião que mais tenho simpatia). A filosofia oriental passou a ser mais predominante na minha vida. O entendimento das diferenças entre oriente e ocidente, o respeito entre essas diferenças, passou a ser uma constante. Com o Japão, aprendi que o que é diferente é interessante, é bom e que vale a pena conhecer, que não se pode passar por esse mundo sem se deliciar com essas diferenças. Diferentemente se Seattle, posso dizer que conheci o Japão de verdade, sem ter saído de casa. Se um dia eu puder ir até lá, tenho quase certeza de que me sentirei como se estivesse visitando um amigo a muito distante. E um turista precisa ter um pouco disso para poder ter uma experiência mais verdadeira, estou errado?

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Um dos meus desenhos!

Depois do Japão, poucos lugares exerceram um fascínio tão grande em mim (acho que somente a Nova Zelândia…que vou escrever mais pra frente). Portugal foi o próximo. Lisboa! Minha avó é portuguesa e, eu então com 18 anos, passei a pensar: vou tirar minha cidadania e ir pra lá! Comprei uma revista de viagem que era especial sobre Portugal e percebi como era bela aquela terra. A revista destacava todas as regiões, as principais cidades, o modo de vida e muitas outras coisas. E Portugal, um país que eu conhecia pouca coisa e ainda fazia piada, foi tendo novas cores. Barsa!!!! Novamente ela me ajudou, a internet ainda não estava tão presente. Li tantas vezes o verbete Portugal que até decorei alguns pedaços. Só que não foi como o Japão. Portugal foi perdendo o brilho, e eu descobri como era difícil a vida de um brasileiro que ia morar fora. E então a internet teve papel importante. Os relatos me desanimaram muito. Não encontrei um sequer que dizia coisas boas sobre a vida do migrante. E eu “conhecia” tanto Lisboa e Portugal que não queria acreditar que era assim tão ruim morar lá. Aquelas belas imagens do Chiado, do Bairro Alto, de Estoril…tudo caiu, e ficou um arrependimento de ter pensado em viver lá. Me senti enganado. Mas isso também foi importante para formar quem eu sou hoje e para formar minha opinião turística das localidades. Portugal foi um engodo!

Seguiu-se Nova Iorque. E essa é uma cidade que ainda gosto muito e quero viver um dia. Não há muito o que falar sobre ela, quem já conhece confirma. E dessa eu tenho certeza que nunca me sentirei enganado. Já descobri tantas coisas sobre a big apple que o encantamento se tranformou numa admiração, em como essa cidade mudou e agora é um templo internacional de viajantes. Os hotéis daquele lugar…ah, quantos currículos já mandei hahahahaha!! O metrô, os bairros, os prédios. O Google Street View foi uma grande ajuda. Mas a Barsa também ajudou a formar a base do conhecimento sobre a cidade. Sempre gostei de arranha-céus. Queria ser arquiteto, e essa é uma cidade incrível para se ter gosto da arquitetura. Eu já estava um pouco maior, então aprendi a não confiar muito no que lia e nem desacreditar completamente. Aprendi a separar a informação boa da ruim. E vi que teria que fazer isso pra sempre, para poder saber que lugar merecia uma visita. Nova Iorque é um deles, mas não quero ir como turista, quero passar um bom tempo lá…essa é uma experiência que deve ser vivida por todo mundo, eu acho.

Na mesma época de Nova Iorque, teve também Paris e Itacaré! Tudo tão misturado, mas todos nos seus devidos lugares e hierarquias. Itacaré era para passar uma temporada, vivendo um estilo de vida que denotava liberdade. Paris era pra passar outra temporada, e de lá eu iria para San Tropez!! Foi por Paris que eu acabei tendo vontade de aprender francês, e de fato comecei a estudar (sozinho, como sempre) para poder aprender esse idioma. E aprendi o básico, o suficiente para entender uma conversa. Essas duas cidades eram mais sonho mesmo, com desejos mais idealizados e pouco realistas. Eu sempre gostei de imaginar a vida perfeita em algum lugar, e essas duas opções serviram para isso, para poder dar vazão à minha mente inventiva, sonhadora e desajustada. Da mesma forma que NY me fez perceber como era importante separar as informações, Paris e Itacaré me mostraram como construir um sonho de viagem perfeita e, talvez, acabar sendo um turista bem turista, com máquina fotográfica, bermuda, mapa e chapéu! E eu já estava na faculdade de turismo, e estava ganhando uma nova percepção das coisas. Turismo de massa, turismo sustentável, turismo cultural…coisas que eu não achava que existiam passaram a mudar, de novo, as concepções. Todos esses destinos, percebi, eram desejos de turista tradicional (tirando o Japão). Depois vieram outros, claro, como os países escandinavos e suas respectivas capitais; Buenos Aires; Curitiba; Edimburgo; Singapura; Vancouver…e eu já era professor do curso de turismo quando veio a Nova Zelândia.

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Pássaro Kiwi, só existe na Nova Zelândia.

Por motivos não importantes aqui, passei a querer conhecer a “Nuzilla”, em meados de 2011. Nada sabia a respeito, a não ser que ficava do lado da Austrália e era um país pequeno e longe! Primeiro, uma visita rápida na página do Wikipedia sobre o país. Beleza…depois, blogs e mais blogs de viagem que pudessem falar mais um pouco. Mas era tudo meio repetido, e não era isso que eu queria. Veio então a Copa do Mundo de Rugby de 2011, que foi realizada na Nova Zelândia, e foi aí que tudo começou a evoluir. Muitos sites falavam a respeito da copa e, consequentemente, do país sede. Conheci os All Blacks, a seleção de rugby neozeolandesa, conheci a história dessa seleção, conheci esse esporte que até então era totalmente desconhecido pra mim. Me apaixonei pelo rugby (hoje jogo e me envolvo muito com a divulgação do rugby aqui na minha cidade), me apaixonei pela Nova Zelândia. Tinha um blog chamado Nossa Vida na Nova Zelândia, da Jeanine Almeida, que foi uma ótima fonte de informações. Nesse blog eu passei a aprender ainda mais sobre esse país incrível. Relatos, modo de vida, diferenças brutais de qualidade de vida e respeito entre os cidadãos, mercado de trabalho…fui atrás de adicionar a dona do blog no facebook, para poder ter mais contatos. Ela me indicou outro blog, chamado Vomit Bag, de um sujeito que lá tinha ido morar. Novamente, outras informações essenciais. E fui descobrindo a beleza desse pequeno país, de população pequena, tranquila e esportista. Cada cidade me parece incrível! E aí foram surgindo as notícias de que a Nova Zelândia está no top 10 de melhores países do mundo, zero em corrupção, top em educação, emprego, sistema de transporte, transparência governamental…tudo que eu sempre achei que era impossível numa sociedade, lá existe. Tudo que me irrita no Brasil, lá não existe. Outro blog também ajudou, o Aventura Kiwi, da Mônica Moraes, que deu um outro olhar nas minhas pesquisas. Comecei a conhecer as empresas aéreas que faziam vôos pra lá, qual era melhor, quanto tempo de viagem. A Nuzilla é um bom país para se conseguir emprego e tocar a vida de forma tranquila (isso se você não é ambicioso e quer ganhar rios e rios de dinheiro), porque eles precisam de muita mão de obra qualificada em praticamente tudo, devido à sua população ser muito pequena. Por isso, entrar como turista e permanecer lá como um trabalhador é facilitado pelo governo, que até incentiva a ida de estrangeiros. As distâncias são curtas, as paisagens mudam drasticamente em kilômetros, é possível ter acesso às melhores universidades, rodovias, hospitais, infraestrutura urbana…e lá foi filmado O Senhor dos Anéis e agora O Hobbit, que são parte da minha vida desde muuuuuuuito tempo! Conversei com várias pessoas que estão residindo lá, colhi milhares de informações nos sites governamentais (é incrivel como tudo que precisamos saber sobre esse país é possível encontrar nos sites do governo, é tudo muito organizado), conversei novamente com residentes e neozeolandeses de nascimento, andei por todas as ruas das principais cidades através do Google Street View, procurei emprego nos sites de empregos, mandei currículos, recebi respostas, mesmo quando era pra me informar de que eu não seria escolhido por estar longe, mas quando eu estivesse lá eles teriam prazer em me empregar. É claro, não é o lugar perfeito, como nenhum lugar no mundo é, mas tudo lá me fascinou tanto que hoje eu sei que é lá que quero morar, quando nada mais der certo aqui e o Brasil estiver afundado em sua corrupção e seu jeitinho. O rugby me fez aprender um novo sentido de amizade, companheirismo e confiança. Os maori, povo autóctone da Nova Zelândia, me ensinaram outra forma de encarar os desafios, tive contato com o haka e com a ligação entre a terra e a cultura. Isso sem contar na organização para receber o turista, nos destinos turísticos, logística turística e tudo o mais relacionado à nossa área de trabalho. A Nova Zelândia superou o Japão pra mim, e mudou toda a minha vida. Até acabei tendo uma percepção de turismo muito anárquica depois de conhecer esse país, e sei que nenhum outro lugar no mundo conseguirá me fazer mudar de opinião. Amadureci meu “eu turista”, abri a mente e o coração. Afinal, ensinar o que sei depende disso, de ter certeza de quem eu sou e como eu sou através do turismo, que é muito mais do que viajar por aí consumindo bens culturais. Quando eu for pra Nova Zelândia (eu sei que vou), serei turista por um tempo, mas um turista diferente. Toda essa saga de descoberta me fez melhor em muitos aspectos, outros talvez eu não seja tão bom, afinal, sou um ser humano, mas aos poucos sei que caminharei na direção certa…aos erros e acertos da vida, pelo menos sei que eu não serei um turista de massa, e isso me faz um cidadão consciente.

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Rugby e os All Blacks!

Nunca estive pessoalmente em nenhum desses lugares, mas os conheço como se tivesse visto. Chega de divagações…ainda tenho muito a aprender, descobrir e ensinar. A todos que leram isso tudo que escrevi…e vocês? Qual a sua percepção de seu “eu turista”?

ps: http://aventurakiwi.wordpress.com/ o blog da Mônica Moraes…o da Jeanine me parece que está fora do ar!

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3 Comentários»

  Bárbara wrote @

Adorei… conheci um outro Renan, bem diferente das salas de aula.

  Aline Marques wrote @

Parabéns, sou estudante de turismo e adorei seu blog. Querendo saber muito mais sobre Nova Zelândia depois de ler sua matéria. Rss

  renanconceicao wrote @

Olá Aline. Agradeço muito por seu comentário. Sou um grande entusiasta da Nova Zelândia mesmo hehehehe. E é isso mesmo, eu tento elaborar um material diferente pros estudantes de turismo, pois é mais comum que se encontre sites ou blogs sobre viagens e não sobre o turismólogo mesmo né.


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